Thaïs



liqeitsynthagm:

Edgar Varèse and Le Corbusier -  Poème électronique, 1958


Como a perro cimarrón
me rodiaram entre tantos;
yo me encomendé a los santos
y eché mano a mi facón

babylonfalling:

The Situationists are coming!

babylonfalling:

The Situationists are coming!

(via abstrackafricana)


O Calidoscópio

[…]

Agora, vamos, volta ao calidoscópio! Que vês? Um outro homem, jovem, pálido, peito escavado. Como são os olhos dele? Vai, descreve! Apaixonados? Sim, isso mesmo: apaixonados.

Por que choras, Gustavo Adolfo? Sim, eu sei, é justamente assim que te parece nos sonhos o filho que não tiveste. Chora! Chorar faz bem. Esse choro que está seco em teu peito há muitos anos…

Sim, olha novamente… Ele ainda está lá? O nome dele? Bem, digamos que é alguma coisa como Rodrigo… Sim, está bem, convencionemos que ele é um poeta… Bem, seus olhos são realmente negros, brilhantes, como os que te perseguem nos sonhos…

Sim, descansa, fuma…

Vai, joga esta fumaça para o teto, faz rodelinhas, elas te acalmam…

Eu vejo que os pelos de teus braços estão eriçados. Esse rapaz virá para te resgatar da morte, da verdadeira morte, e é isso que te assusta…

Sim, toma de novo do calidoscópio: E agora? Três imagens, três imagens superpostas? Sim, eu sei: o velho, o jovem e tu…

Calma! Só agora é que a história vai se desenrolar:

Vai, olha! Eu te ajudarei, eu te direi aquilo que os pedacinhos de vidro não conseguem desenhar:

Ali está o velho. Numa pequena saleta, cercado de instrumentos complicados. Luzes piscam no painel: verdes, vermelhas, azuis. Olha, Gustavo Adolfo, para esse rosto angustiado que toma, sucessivamente, três colorações: verde, vermelha, azul. Gustavo, olha bem!, ele está com o cotovelo sobre a mesa e segura a cabeça: está pensando. Ele está em dúvida. E reflete. As rugas denunciam o tamanho de sua preocupação. Ele balbucia umas palavras.

Vai, Gustavo Adolfo! Diz que palavras são essas…

Como? Não entendes? Vamos, esforça-te! O quê? Pudor? Ora, bolas… Ele te manteve preso por tanto tempo e hoje tens escrúpulos em mergulhar na intimidade dele? Não sejas infantil, vai, lê!

soltá-los, não soltá-los, soltá-los, não soltá-los…

Eu não disse que era fácil?

Como? Queres descansar? Pois está bem…

Fuma devagar, lentamente, saboreando… Vejo que tua mão treme, que tua testa poreja… Tuas pernas, teus braços pesam como chumbo…

Toma este resto de café, mesmo frio te fará bem…

Estás pronto? Vamos lá…

Viu como é fácil? Em poucos minutos te recuperaste, um minuto apenas. É assim mesmo, no início todos têm medo, depois se recuperam, acham até banal…

Vai, torce o calidoscópio para a direita. Assim!

Quem está lá? O jovem? Eu te ajudo: está sentado, uma mesa cambaia cheia de livros rotos. Ele escreve. Rapidamente. Parece sofrer, como se a mão fosse incapaz de acompanhar o ritmo de seus pensamentos. Seus lábios são finos, delicados, e se movem. Ele pára. De olhos fechados, pronuncia apenas uma palavra. Alucinadamente. Precisa expulsar esta palavra…

Vamos, Gustavo Adolfo, lê! Piedade? Não, ele não terá piedade de ti quando, no futuro, mergulhar em tua vida. Vai e viola esta individualidade! Lê:

bartira, bartira, bartira, bartira, bartira, bartira, bartira

Muito bem! Isso mesmo. Não, não largues o calidoscópio, continua olhando! Eu te ajudo:

O rapaz se levanta. Sai à rua. Passos miúdos. Avança sem olhar para os lados. Ruas desertas. Levita, é assim mesmo nos sonhos, levita agora, deixa a cidade para trás. Sobrevoa pequenas chácaras. Ovelhas lá embaixo. Nuvens pequenas no céu. Chega a uma estranha construção: parece um castelo.

Gustavo Adolfo, eu te proíbo de largares o calidoscópio! Aguenta firme!

E agora? Eu descrevo para ti: O velho abre a porta. Eu sei de tudo (diz o rapaz). Como assim (o velho se faz de desentendido)? A ratoeira, os ratinhos (o rapaz coça o queixo, onde despontam alguns fios de barba). Eu sabia que alguém viria, um dia, entre (o velho franqueia a porta ao jovem)! Esperei muito tempo por esse dia (diz o rapaz, olhando com interesse para a sala do castelo). Eu não podia morrer antes de você chegar (diz o velho, uma lágrima escorre pelo rosto).

Gustavo Adolfo, mantém o rosto colado aí! Isso, podes virar um pouco para a esquerda…

Olha! Ali estão eles de novo: lado a lado numa rua deserta. O rapaz se detém frente a uma casa arruinada. Bate palmas no portão. Aparece uma jovem. Ela é negra e tem olhos grandes e submissos. O rapaz pega a mão dela. É Bartira (diz). Muito prazer (o velho se curva e beija a mão da moça).

Os três, trindade.

Voltam ao castelo. Voando, de mãos dadas.

Gustavo Adolfo, por que jogas longe o calidoscópio? Pareces criança!

Sim, eu sei que temes aquelas paredes de cimento e aquela fileira de camas de ferro. Eu sei que temes aquele salão frio que está sob a grama tão verde.

Vai! Pega o calidoscópio…

Sim, podes fumar. Agora falta pouco e já não é mais possível retornar, temos que ir até o fim…

Pronto? Eu narro: Genial (diz o jovem olhando para o painel onde brilham as lampadinhas verdes, vermelhas, azuis)! Esses jovens (o velho sorri, condescendente)!

Rapidamente, vai, move o calidoscópio! Não importa! Para qualquer lado, não interessa, o importante é teu olho…

No porão, agora, os dois jovens. Eu descrevo: Ele se ajoelha e beija os pés da moça. Ela parece assustada e diz: Isso parece uma tumba de faraó. Depois, joga-se sobre uma das camas. O rapaz continua ajoelhado, olha para a moça: adoração.

É nesse exato momento que as paredes se movem guardando ali, para a eternidade, os dois.

Por que choras, Gustavo Adolfo? Sim, eu sei, somos todos irremediavelmente românticos.

Vai! Agora, move esse calidoscópio, rapidamente, mais rápido. Isso…

O rapaz senta-se à mesa, escreve freneticamente. Enche várias folhas de papel. Na primeira se lê: Podem me chamar de louco, de embusteiro. A última termina assim: Isso ultrapassa o poema, já é o infinito…

O velho move a alavanca. A mão de ferro, gigantesca garra de aço, resgata as folhas de sobre a mesa da ratoeira. Os papéis estão agora nas mãos do velho que os coloca dentro de um estojo de couro.

Então, o velho se levanta. Dirige-se para a prateleira. Um frasco. O velho despeja o conteúdo num copo.

Não, não podes intervir, Gustavo, assim será…




Lilly

& Amigão



… Queremos o essencial, o mais primitivo, o básico. Toda a beleza de um grande homem pode estar na sua maneira de levar a taça de café aos lábios. Como Sócrates e a cicuta. O gesto definitivo, é o que persigo. Algo assim intrincado e banal como o universo.

O Calidoscópio e a Ampulheta

Diário do Dr. X


Der Verlust by Lacrimosa on Schattenspiel


Le seul amour by Reynaldo Hahn on Decrets indolents du hasard



Poppy (2010), Ellsworth Kelly

Poppy (2010), Ellsworth Kelly

(Source: horizontalfall, via clrfbranco)




(Source: halfagony-halfhope)


Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.

O coração disparado

Bairro


srhuesos:

Miki Berenyi in the back of a car with a bunch of lemons (a reminder of Lush’s Split album cover) and a guitar, 1994.

srhuesos:

Miki Berenyi in the back of a car with a bunch of lemons (a reminder of Lush’s Split album cover) and a guitar, 1994.


Daisy began to sing with the music in a husky, rhythmic whisper, bringing out a meaning in each word that it had never had before and would never have again. When the melody rose, her voice broke up sweetly, following it, in a way contralto voices have, and each change tipped out a little of her warm human magic upon the air.


Luvas de Pelica, Ana C.

Luvas de Pelica, Ana C.

(Source: recondita)


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